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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Será a (uma certa) filosofia um entrave ao conhecimento?

«Em geral, inclino-me a pensar que a maior parte, senão a totalidade, das dificuldades a que até agora os filósofos têm achado graça, e que bloquearam o acesso ao conhecimento, se devem inteiramente a nós mesmos — primeiro levantamos a poeira e depois queixamo-nos que não conseguimos ver.»

Berkeley, Princípios do Conhecimento Humano (1710) Introdução, § 3.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Rir e pensar

«Is it hard to do philosophy?
It's murder, absolutely. I compare it ... if you really want to know how to do it, you get up in the morning, there's a large brick wall and you run your head against that brick wall. And you keep doing that every day until eventually you make a hole in the wall. That's what it feels like.» (John Searle)
In John Searle Interview: Conversations with History; Institute of International Studies, UC Berkeley, http://globetrotter.berkeley.edu/people/Searle/searle-con2.html

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O que é a felicidade? (Em directo.)



«Valorizamos a felicidade por si mesma e não apenas por ser instrumental. Mas o próprio conceito de felicidade esconde algumas armadilhas. Uma concepção subjectivista da felicidade considera que na felicidade só conta o que uma pessoa sente, interiormente, sendo irrelevante a origem do que a faz sentir-se feliz. Isto é implausível, porque, a ser verdadeira, significaria que seria para nós irrelevante se a fonte da nossa felicidade é a realidade ou uma fantasia. Mas isto não é irrelevante para nós: se uma fonte importante da minha felicidade é a amizade dos meus amigos, é para mim muitíssimo relevante se a amizade deles é genuína ou fingida.
Outra concepção implausível da felicidade é crer que se trata de algo que podemos fazer. Pelo contrário, a felicidade é algo que resulta de muitas actividades a que nos dedicamos, mas não é em si algo que possamos fazer. Porque não é algo que possamos fazer, é também implausível uma terceira ideia comum sobre a felicidade: que é algo que se pode obter fazendo algo momentoso especial, findo o qual ficamos felizes – mais ou menos como alguém que, depois de muito esforço, ganha uma medalha. (…)
A felicidade é um valor fundamental para todos nós, mas não se pode ser feliz visando a felicidade. É-se feliz cultivando-se actividades de valor e alargando a compreensão dos nossos talentos e limites. É-se feliz acrescentando valor ao mundo e apreciando o valor que encontramos no mundo. Mas isto não se faz senão fazendo coisas muito diversas – essas coisas banais que todos fazemos todos os dias e que incluem ser médico e curar pessoas, ou ser escritor e contar histórias, ou ser pai, mãe, filho ou amante carinhoso, ou cozinheiro de talento, ou professor paciente. Entregarmo-nos a actividades de valor é uma condição necessária para a nossa felicidade e há muitas actividades de valor. A verdadeira dificuldade é evitar atribuir valor ao que o não tem e não dar suficiente valor ao que o tem. Mas isso é algo que só aprendemos com a experiência, a reflexão e o estudo. Não há receitas mágicas.
Outra ilusão a evitar quando se reflecte sobre a felicidade é esquecermo-nos de quem realmente somos: mamíferos com certas peculiaridades, e ao mesmo tempo seres cognitivamente sofisticados. Nem deuses, nem bestas – mas um pouco de ambos, num certo sentido. Isto significa que vidas que privilegiem apenas as nossas preferências de mamíferos – a alimentação e o sexo, por exemplo – ou que privilegiem as nossas preferências cognitivas – o estudo e o conhecimento – terão poucas probabilidades de serem realmente compensadoras. Os seres humanos são tão incapazes de uma vida realizada vivendo como porcos como são vivendo como deuses. Daqui conclui-se que a ânsia de imortalidade, que está provavelmente no cerne do impulso religioso de algumas pessoas, pode ser uma tremenda ilusão: sendo nos o que somos – e somos seres intrinsecamente temporais – uma existência sem fim ou atemporal poderá parecer uma promessa paradisíaca, mas é bem mais razoável crer que será, na verdade, diabólica.
Precisamos de ser judiciosos na descoberta do valor, e isto implica dar uma grande atenção à realidade do que somos. Mas como sabemos o que é a realidade? Não será tudo mera aparência?»
Desidério Murcho, A Filosofia em Directo (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2011) 61-2.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Pequeno acontecimento editorial

Vem amanhã a acompanhar o Jornal Público, Filosofia em Directo, de Desidério Murcho, uma pequena obra de divulgação da filosofia. A Fundação Francisco Manuel dos Santos, que a edita, tem publicado um conjunto de pequenas obras, que pretendem ser sínteses essenciais, em várias áreas do conhecimento e da acção, para ajudar o grande público a melhor compreender Portugal (uma das que saiu entretanto foi A Ciência em Portugal, do conceituado físico português Carlos Fiolhais).

Foi entregue ao filósofo Desidério Murcho, professor na Universidade Federal de Ouro Preto, no Brasil, a tarefa de trazer ao grande público o essencial sobre a filosofia. A ideia é «fazer o leitor assistir em directo, pela força do exemplo e sem mediações históricas nem academismos, ao raciocínio filosófico intenso» (p.12). Consequentemente, trata-se de convencer as pessoas de que ter “umas tintas de filosofia”, na expressão do britânico Bertrand Russell, é importantíssimo para uma vida verdadeiramente humana e até mesmo útil para uma vida bem sucedida numa era cada vez mais exigente: «Ter uma formação elementar em filosofia é importante porque nos ensina a pensar melhor sobre problemas de tal modo complexos que a tentação é desistir de tentar resolvê-los» (p.11). Estilo fácil e atraente, embora sem perder o rigor e a contundência do pensamento filosófico, Filosofia em Directo promete ser uma deliciosa introdução à filosofia e ao filosofar, percorrendo, entre outros, tópicos como democracia, liberdade, valor, sentido, realidade, raciocínio e verdade.
Membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Filosofia, Desidério Murcho é autor de várias obras, designadamente sobre o ensino da filosofia, escreve crónicas na imprensa e dirige a revista Crítica. Com raras excepções, em Portugal não abundam títulos deste género assinados por autores portugueses e o país real vive ainda sob o jugo de infundadas ideias feitas sobre o que seja a filosofia e pesados preconceitos sobre a sua utilidade. Por isso, apesar de pequeno, é um acontecimento editorial, pois trata-se de uma importante contribuição de um académico português para o esclarecimento do público não especializado acerca do que é a filosofia e da mais-valia que competências e conhecimentos filosóficos podem trazer a todos.
Já não há desculpas para não saber (nem sequer pelo preço: €3,15)! Obrigatório.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Rir e pensar

Quantos cabelos têm de cair a uma pessoa para poder ser considerada calva?

(Esta é uma questão à qual subjaz uma falácia: a falácia da anfibologia ou vaguidade. Consiste em jogar com a vaguidade de algumas palavras, levando-nos a crer que se torna impossível chegar a uma conclusão ou que é falsa determinada ideia, quando na realidade pode não ser. Neste caso, faz-nos crer que nunca poderíamos determinar exactamente quando uma pessoa pode ser considerada calva, já que se trata de um conceito vago!)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Dia Mundial da Filosofia

(Visita a página da UNESCO)
O Dia Mundial da Filosofia é uma iniciativa da UNESCO, que se comemora desde 2002. Inscreve-se numa estratégia geral deste organismo da ONU de valorização daquela área do saber: «to reaffirm the true value of philosophy, that is to say the establishment of dialogue that must never cease when it comes to essential matters, and of thought which gives us back a large part of human dignity whatever our condition E, em particular, numa estratégia de procurar persuadir os estados a introduzirem ou alargarem o ensino da filosofia a todo o ensino secundário.

Aprender filosofia permite aumentar a consciência de mundo dos jovens, futuros adultos, desenvolver a capacidade especulativa (pensar sobre o possível) e, portanto, a criatividade – um dos motores da evolução civilizacional, sobremaneira em tempos de crise. Mas permite também desenvolver competências que possam ser usadas na vida com outros. É essa também a convicção daquela organização, ao salientar o vínculo entre filosofia e democracia e filosofia e cidadania, já que aprender filosofia permite desenvolver as capacidades de análise, de problematização e reflexão crítica, de utilização rigorosa de conceitos, de argumentação e exposição clara de ideias – capacidades que fazem da filosofia uma área do saber que também pode ser útil para a vida com outros no seio de exigentes sociedades democráticas, com problemas complexos a pedir soluções complexas.
Em Portugal, há muito que o ensino da filosofia faz parte integrante do curriculum do ensino secundário, tomando parte da formação geral dos alunos do 10.º e 11.º ano. Neste particular, podemos dizê-lo, estamos à frente da maioria dos países do mundo! De facto, desde 1791, no contexto da Reforma Pombalina, começou a ensinar-se filosofia naquilo que hoje designamos por ensino secundário, tradição apenas abalada em 1903 e 1904, em que houve propostas de abolição da disciplina do curriculum do ensino secundário.

A filosofia pela poesia

«Mais gelo quanto mais ardo
disse a Heloísa, Abelardo.

(Foi minha a filosofia -- quando assim o quis ter --,
mais do que um querer saber -- de um saber que não queria --:
que é sabor de poesia... -- Oh, sábia sabedoria! --
Saborear o não ser!...)

De tempo o saber precisa,
disse a Abelardo, Heloísa.

(José Bergamín, Poesías casi completas)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ser filósofo, ser humano – uma aventura

Para comemorar o Dia Mundial da Filosofia (18-11-2010), o grupo de professores de filosofia exibirá, no próximo dia 17-11-2010, pelas 14:15, no Auditório da Escola Secundária, o filme “Wittgenstein”, de Derek Jarman, dirigido a todos os alunos do ensino secundário.

O intuito principal é pôr os alunos em contacto com um dos filósofos mais influentes do séc. XX e mostrar, através de um exemplo, o que é ser filósofo, a utilidade da filosofia, mas também a aventura de ser humano. Além de questões relacionadas com a definição e utilidade da filosofia, o filme suscitará o debate de questões de ética, lógica e filosofia da linguagem, em suma, questões relacionadas com a nossa abordagem e conhecimento do mundo, veículo privilegiado de acesso à vida verdadeiramente humana.

O filme é uma dramatização em estilo teatral moderno da vida e do pensamento do filósofo Ludwig Wittgenstein (para uma síntese do seu pensamento, ver aqui). Nascido em Viena e educado na Universidade de Cambridge, os seus principais interesses giravam em torno da natureza e limites da linguagem. Esta película biográfica apresenta as ideias de Wittgenstein e a sua luta contra os absurdos da sua vida. É nesta linha do absurdo que há aparições de um marciano verde e um rinoceronte fora de lugar!

Além desta faceta irónica e jucosa, é um projecto cinematográfico que introduz uma reflexão sobre temas notavelmente sérios, como a relação homossexual do filósofo com um seu aluno e o temor que sentia devido à sociedade repressora onde vivia ou os presumíveis equívocos de toda uma tradição filosófica com as suas supostas falsas questões.

Não utilizando muitos recursos de cenário, visto que o filme é gravado inteiramente num espaço cercado por um fundo preto, esta biografia segue Wittgenstein desde a sua infância, em Viena, o seu alistamento na I Guerra Mundial e, finalmente, a sua vida em Cambridge, onde manteve uma ligação com o influente economista Maynard Keynes (John Quentin) e o não menos importante filósofo britânico Bertrand Russell (Michael Gough). Embora tenha deixado a universidade diversas vezes à procura de viver a vida de uma forma diferente (tendo pensado, certa vez, tornar-se um trabalhador braçal), Wittgenstein acaba sempre por voltar à universidade -- à aventura de ser humano em busca do saber.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Quebra-cabeças


Esta série de palavras segue uma regra lógica:

TRENS
MALAS
MAIOR


Das palavras seguintes, qual poderá continuar a série:

PARTI
AULAS
CALMA
BOIÃO

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ferramentas da filosofia

«Os filósofos concebem teorias bizarras, empolgantes e às vezes inquietantes. Esse não é principal objectivo do seu trabalho, claro. O que eles querem, acima de tudo, é saber aquilo que é verdadeiro. A razão é a ferramenta que usam para os ajudar a atingir esse objectivo.

Os filósofos querem que as suas teorias e soluções tenham, pelo menos, boas hipóteses de estarem certas. Tentam conseguir isso aplicando a razão. Submetem as teorias a um estudo crítico minucioso e tentam arranjar argumentos convincentes para supor que elas estão certas.

É tentador pensar nos nossos “poderes da razão” como a capacidade de encadear logicamente cadeias de raciocínios e também de descobrir os elos defeituosos dessas cadeias, tal como um computador pode estar programado para fazer. Não há dúvida de que a capacidade de construir cadeias complexas de raciocínios e de nelas detectar falhas é uma competência essencial para qualquer filósofo. Mas a expressão “poderes da razão” refere-se, na verdade, a um conjunto de capacidades mentais bem mais vasto e diversificado. Tornar-se um bom filósofo implica desenvolver todo um conjunto de competências de pensamento, incluindo a capacidade de fazer afirmações claras, precisas e relevantes. Os filósofos também precisam da capacidade de não abandonar um problema e de revelar paciência e determinação. Além disso, devem ser capazes de recuar e de pensar de forma imaginativa e criativa (…). Também são úteis à filosofia a capacidade de pesar as probabilidades e os dados, a capacidade de reconhecer (e combater) a sua subjectividade e a capacidade de identificar falácias no raciocínio próprio e dos outros.»

Stephen Law, Filosofia (Porto: Dorling Kindersley / Civilização Eds, 2009) 192.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Quebra-cabeças

 Que palavra de três letras será esta:


___ ___ ___


sabendo que:


- MÊS não tem nenhuma letra comum;
- SIM tem uma letra comum, mas que não está no devido lugar;
- RÓI tem uma letra comum, situada no devido lugar;
- ROL tem uma letra comum, que não está no devido lugar;
- MOA tem uma letra comum, que não está no devido lugar.

sábado, 2 de outubro de 2010

Para que serve a filosofia?


«As perguntas filosóficas incluem algumas das perguntas mais empolgantes, intrigantes e importantes jamais colocadas. Conseguem pôr em causa as nossas crenças mais básicas.

Às vezes, a filosofia é vista como uma disciplina “cabeça na lua”, sem relevância para a vida quotidiana. Mas a verdade é que a filosofia pode ser, e muitas vezes é de facto, muito relevante.

Embora possamos não nos aperceber disso, todos temos crenças filosóficas. Por exemplo, tenho a certeza de que você, tal como eu, acha que o passado é um bom indicador do futuro. Isso é uma crença filosófica. Podemos acreditar que Deus existe. Ou acreditar que não existe. Essas também são crenças filosóficas. Alguns crêem que temos uma vida imortal, outros acham que somos seres puramente materiais. Muitos julgam que as coisas são moralmente correctas ou incorrectas independentemente do que nós possamos achar, outros defendem que o correcto e o incorrecto não passam de uma preferência subjectiva. Acreditamos que o mundo que vemos à nossa volta é real e que continua a existir mesmo quando não estamos a observá-lo. Também essas são crenças filosóficas e foram ambas objecto de análise por parte de filósofos.

Obviamente essas crenças podem ter um impacto na nossa vida quotidiana. Uma pessoa que acredita que os princípios morais não passam de preferências subjectivas pode acabar por comportar-se de forma muito distinta de uma pessoa que acredita que a imoralidade de roubar ou matar é do domínio dos factos objectivos. Os debates morais e políticos contemporâneos também têm um carácter filosófico. As questões ligadas ao aborto, aos direitos dos animais, à guerra e à liberdade de expressão têm todas uma importante dimensão filosófica.

Alguém que nunca tenha pensado realmente nessas questões, ou que esteja mal preparado para pensar nelas, estará portanto em desvantagem na hora de tentar perceber o que é verdadeiro – ou que tem mais probabilidades de o ser.»

Stephen Law, Filosofia (Porto: Dorling Kindersley / Civilização Eds, 2009) 14-15.