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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Condição necessária e condição suficiente

«Se p é uma condição necessária de q, então q não pode ser verdadeira sem que p seja verdadeira. Se p é uma condição suficiente de q, então, dada a verdade de p, q também é verdadeira. Assim, saber curvar bem é uma condição necessária, mas não suficiente, para conduzir bem, uma vez que uma pessoa pode saber curvar bem, mas conduzir mal por outras razões. Se não se tiver em atenção a distinção, podem resultar confusões. Por exemplo, a afirmação de que A causa B pode ser interpretada como significando que A é, por si só, uma condição suficiente de B, ou apenas que é uma condição necessária de B (...).»

Simon Blackburne, Dicionário de Filosofia (Lisboa: Gradiva, 1997) 75.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A importância da Lógica

Nada melhor para comemorar o Dia Mundial da Filosofia do que… filosofar. Vamos, pois, a isso!
Num comentário a este texto sobre a importância da lógica, TJ pretendeu defender a tese de que a lógica não é importante.
Começa por sustentar que ninguém precisa que lhe expliquem que dizer que “todas as verdades são relativas” é já admitir que essa também seria uma verdade relativa e, portanto, tão “verdadeira” quanto a sua contrária (“nem todas as verdades são relativas”), pois toda a gente já o subentende pelo senso comum. Isto quer dizer que todas as pessoas já sabem isto? Que quando dizem que “todas as verdades são relativas” já sabem que essa também é uma verdade relativa e, portanto, tão “verdadeira” quanto a sua contrária (“nem todas as verdades são relativas”)? Não parece plausível e, de facto, não é verdade. Bastaria fazer um teste, um simples inquérito de opinião, para verificar que as pessoas quando empregam aquela expressão não têm disso consciência, caso contrário não utilizariam tal argumento. Utilizam-no, justamente, para combater a tese contrária, sem se aperceberem que a estão a legitimar! E, por isso, não sabem, ao contrário do que o TJ procura mostrar, que estão a cometer um erro lógico.
TJ argumenta depois do seguinte modo: se a lógica faz parte do nosso pensamento (“as peças”), se está subentendida em tudo o que dizemos, então é-nos natural; se nos é natural, então é completamente inútil («não faz sentido vir tão cá atrás para contra-argumentar qualquer coisa») [silogismo hipotético!]. Depois, quem contra-argumenta com uma pessoa que não sabe as regras da lógica tem vantagem, tal como tem vantagem quem argumenta sobre basebol com alguém que não conhece as regras do jogo [argumento por analogia (que estudaremos mais tarde!)]. E daqui retira a conclusão de que «numa conversa normal pode-se saltar esse passo, não há necessidade de definir a lógica já que ela está subentendida»; «não digo que não seja importante», mas como ela está sempre presente («como não vai afectar as “contas”»), então pode-se «omitir».
Ora, antes de mais, a filosofia e, neste caso, a lógica são importantes – ao contrário do que parece defender TJ –, porque ajudam a disciplinar o pensamento. E fazem-no, antes de mais, ao nível do uso rigoroso dos conceitos e da clareza da exposição daquilo que queremos defender. Algumas passagens da argumentação do TJ não são claras. E não sendo claras, não permitem compreender o que pretende exactamente defender. Por isso é que o conhecimento dos princípios e regras da lógica e da argumentação é determinante quando queremos pensar de forma válida. Senão, vejamos.
O que significa dizer que a lógica está “subentendida” no nosso pensamento, que “nos é natural”? Quer dizer que, quando raciocinamos, o fazemos sempre respeitando os princípios e regras lógicas? Mesmo adoptando uma já antiga (desde Platão) teoria do conhecimento como recordação – teríamos já em nós o que iríamos conhecer – seria sempre necessário torná-lo consciente. E torná-lo consciente é despertar tais conhecimentos que estariam escondidos na nossa mente, é trazê-los à consciência. Ou seja, é aquilo que podemos chamar aprender – neste caso, lógica – com a ajuda de outros (professores, livros ou outras fontes). Mas isto tornaria difícil saber o que vinha de facto de fora, dos outros, e o que era já nosso – em última análise, poderíamos chegar à conclusão que não possuíamos quaisquer conhecimentos, que vinham todos dos outros; teríamos apenas a capacidade intelectual para os compreendermos. Nesse caso, apenas se nos ensinássem lógica, ficaríamos (pelo menos, mais rapidamente) a saber evitar erros argumentativos. Além disso, o simples facto de nem todas as pessoas se aperceberem que cometem erros lógicos (como quando defendem que “todas as verdades são relativas”) pode ser uma prova de que, de facto, o conhecimento das regras lógicas não é inato.
E o que significa não haver «necessidade de definir a lógica»? Claro que não é tão importante saber o que é a lógica; mas já saber raciocinar usando regras lógicas é de extrema importância, pelo menos para quem esteja interessado em utilizar o pensamento inferencial naquilo em que ele é mais poderoso e útil – procurar a verdade.
Por outro lado, a lógica também é importante como disciplinadora do nosso pensamento, porque nos permite evitar erros graves, básicos, quando raciocinamos e argumentamos, designadamente ajuda-nos a não cometer ou a detectar contradições lógicas. Da premissa de que é evidente que quem possui conhecimentos de lógica tem vantagem sobre quem não os possui, é contraditório tirar a conclusão de que ela se pode «omitir», dando a entender que não é útil ou importante. Ou é uma vantagem ter conhecimentos de lógica e então isso é importante; ou não é uma vantagem e, por isso, não é importante. E de que modo a lógica, sendo-nos natural (supondo que o é), pode ser, simultaneamente, inútil? E se o TJ concorda que seja importante, então o que quer dizer quando diz que se pode «omitir»? Ao não tornar claras estas ideias, elas perdem todo o poder argumentativo que, eventualmente, poderiam ter.
O problema da argumentação do TJ é a ambiguidade da linguagem que utiliza, usando conceitos vagos, bem como o facto de incorrer em contradições, o que torna a sua tese muito pouco sustentável. Apesar de ter valor especulativo, a estrutura e organização lógico-argumentativa é, sem dúvida, pouco cuidada. O que, aliás, se torna uma prova viva da importância e necessidade de "saber mesmo" lógica, ideia completamente inversa àquela que pretendeu, sem sucesso, defender TJ. É como se a forma como argumentou tivesse demonstrado, precisamente, a tese oposta à que pretendia.

Mas, de qualquer modo, caso a sua argumentação não tivesse nenhum valor, não teria despertado este interesse e não teria proporcionado a grande satisfação de a ter tentado criticar!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Quaestio




Será a Lógica importante para a Filosofia?
Porquê?

Lógica e Filosofia

«O pensamento consequente é o pensamento fundamentado. Um pensamento é consequente quando se baseia em razões e retira correctamente consequências das razões em que se baseia. (…)

A lógica permite determinar que consequências se retiram correctamente das nossas ideias e que consequências só aparentemente se retiram delas. Uma demonstração lógica é um modelo abstracto e simplificado do pensamento consequente (…).

Por exemplo, alguém poderá defender a seguinte ideia, hoje em dia muito popular: “Todas as verdades são relativas”. Sem formação lógica, acontece duas coisas a essa pessoa. Em primeiro lugar, não se apercebe que a sua ideia é auto-refutante – isto é, não se apercebe que a verdade da sua ideia implica a sua falsidade. Se todas as verdades são relativas, também esta é uma verdade relativa; mas ser uma verdade relativa significa que para algumas pessoas, ou em algumas circunstâncias, ou para algumas comunidades, esta ideia é falsa. Logo, se for verdade que todas as verdades são relativas, é falso em algumas circunstâncias que todas as verdades são relativas. Em segundo lugar, não só essa pessoa não se apercebe dessa dificuldade lógica elementar a que tem de responder, como sente que quem lhe apresenta este contra-argumento a está a enganar. Como o contra-argumento se baseia num raciocínio ligeiramente complexo e a pessoa em causa não tem instrumentos para avaliar a sua correcção, sente que está a ser enganada. O resultado dessa situação é que essa pessoa não está equipada para discutir ideias filosóficas – tudo o que consegue fazer é dar voz aos preconceitos do seu tempo, sem ter capacidade crítica para se distanciar das suas próprias ideias e procurar responder aos argumentos que se levantam contra elas. Nestas circunstâncias, o estudo da filosofia deixa de conduzir à liberdade do pensamento crítico e torna-se apenas um meio para sustentar preconceitos com nomes sonantes de filósofos e palavras complicadas.»

Desidério Murcho, O Lugar da Lógica na Filosofia (Plátano: Lisboa, 2003) 30-31.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Rir e pensar

Crisipo (Solis, 280 a.C. - Atenas, 208 a.C.) foi um dos filósofos mais importantes do estoicismo antigo, que se dedicou em especial ao estudo da lógica.

Segundo ele, até os cães utilizam a lógica, como se pode comprovar se os observarmos quando seguem um rasto de outro animal e chegam a uma encruzilhada, onde têm de escolher entre dois caminhos distintos. Se, depois de farejar um deles, o elimina, opta automaticamente pelo outro, como se o cão em questão utilizasse um silogismo disjuntivo – “A ou B, não A; logo, B”!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Quebra-cabeças


Esta série de palavras segue uma regra lógica:

TRENS
MALAS
MAIOR


Das palavras seguintes, qual poderá continuar a série:

PARTI
AULAS
CALMA
BOIÃO

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ferramentas da filosofia

«Os filósofos concebem teorias bizarras, empolgantes e às vezes inquietantes. Esse não é principal objectivo do seu trabalho, claro. O que eles querem, acima de tudo, é saber aquilo que é verdadeiro. A razão é a ferramenta que usam para os ajudar a atingir esse objectivo.

Os filósofos querem que as suas teorias e soluções tenham, pelo menos, boas hipóteses de estarem certas. Tentam conseguir isso aplicando a razão. Submetem as teorias a um estudo crítico minucioso e tentam arranjar argumentos convincentes para supor que elas estão certas.

É tentador pensar nos nossos “poderes da razão” como a capacidade de encadear logicamente cadeias de raciocínios e também de descobrir os elos defeituosos dessas cadeias, tal como um computador pode estar programado para fazer. Não há dúvida de que a capacidade de construir cadeias complexas de raciocínios e de nelas detectar falhas é uma competência essencial para qualquer filósofo. Mas a expressão “poderes da razão” refere-se, na verdade, a um conjunto de capacidades mentais bem mais vasto e diversificado. Tornar-se um bom filósofo implica desenvolver todo um conjunto de competências de pensamento, incluindo a capacidade de fazer afirmações claras, precisas e relevantes. Os filósofos também precisam da capacidade de não abandonar um problema e de revelar paciência e determinação. Além disso, devem ser capazes de recuar e de pensar de forma imaginativa e criativa (…). Também são úteis à filosofia a capacidade de pesar as probabilidades e os dados, a capacidade de reconhecer (e combater) a sua subjectividade e a capacidade de identificar falácias no raciocínio próprio e dos outros.»

Stephen Law, Filosofia (Porto: Dorling Kindersley / Civilização Eds, 2009) 192.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Quebra-cabeças

 Que palavra de três letras será esta:


___ ___ ___


sabendo que:


- MÊS não tem nenhuma letra comum;
- SIM tem uma letra comum, mas que não está no devido lugar;
- RÓI tem uma letra comum, situada no devido lugar;
- ROL tem uma letra comum, que não está no devido lugar;
- MOA tem uma letra comum, que não está no devido lugar.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Rir e pensar

Costuma atribuir-se a Bertrand Russell – importante filósofo inglês, sobretudo no âmbito da filosofia da linguagem e da lógica – a seguinte anedota.

Russell discutia um dia com outro filósofo sobre a implicação lógica (ou condicional). Em lógica, considera-se que uma implicação só é falsa quando o antecedente é verdadeiro e o consequente, falso. Portanto, se o antecedente for falso, então a implicação é automaticamente verdadeira. Mas este outro filósofo, que achava tudo isto absurdo, quis mostrar com um exemplo o ridículo que poderia resultar dessa regra lógica:

– Segundo isso – disse ele a Russell –, haveria que admitir que é verdade que “se 2 + 2 = 5, então o senhor é o Papa”?

Russell respondeu afirmativamente, improvisando a seguinte demonstração disparatada:

– Suponhamos que 2 + 2 = 5; então, se subtrairmos 3 a cada lado da equação, ficamos com 1 = 2; então, o Papa e eu somos um. Logo, eu sou o Papa.